Quando você briga com Deus
Eu costumava sentir uma raiva silenciosa quando as coisas não saíam como eu queria.
Não era um escândalo.
Era aquela frustração contida.
A sensação de “isso não é justo”.
Uma decepção que você não admite em voz alta, mas que vibra no peito como cobrança:
“Eu fiz tudo certo. Meditei, me alinhei, confiei — e ainda assim deu errado?”
Como se o universo me devesse algo.
Como se minha prática espiritual fosse moeda de troca.
E Deus, um gestor de resultados que eu pudesse cobrar.
Levei tempo para perceber o que realmente estava acontecendo.
Eu estava brigando com o que é.
Sem perceber, eu encarnava os três papéis do Triângulo Dramático ao mesmo tempo:
— vítima de um plano divino injusto
— perseguidora de uma realidade que “deveria” ser diferente
— e salvadora de mim mesma, tentando controlar o incontrolável
E sabe o que sustenta esse triângulo?
A recusa em dizer “obrigada” para o que chegou.
Porque “a tudo dai graças” não é fingir que está tudo bem.
É o oposto disso.
É a maturidade de reconhecer que você não vê o plano inteiro.
Que a sua frustração é apenas a sua perspectiva limitada tentando controlar um jogo cujas regras você não escreveu.
Quando você briga com Deus, no fundo está dizendo:
“Eu sei mais do que Você.”
E isso te prende no drama.
Porque enquanto você reclama, controla ou barganha, você não aprende.
Você negocia.
E negociação é resistência.
E resistência é estagnação.
Eu passei por isso muitas vezes.
Eu tinha um plano.
Uma visão clara.
Certeza absoluta de como as coisas deveriam acontecer.
E quando não aconteciam, eu ficava indignada tentando descobrir “onde eu errei”.
Como se espiritualidade fosse uma fórmula matemática:
acertou as variáveis, recebe o prêmio.
Até o dia em que uma ficha caiu:
Amadurecer espiritualmente é parar de brigar com o que chegou.
Não é aceitar passivamente.
É reconhecer que existe uma inteligência maior operando —
e que aquilo que você chama de “fracasso” pode ser exatamente o redirecionamento que sua alma precisava.
A tudo dai graças não é sobre gostar do que aconteceu.
É sobre confiar que, de alguma forma que você ainda não compreende, aquilo serve.
E quando você para de brigar?
Quando solta a cobrança, a negociação, a tentativa de controlar Deus?
Aí você sai do triângulo.
Aí deixa de ser vítima da vida, perseguidora da realidade e salvadora de si mesma.
Aí você respira.
Então eu te pergunto — com honestidade:
👉 em que área da sua vida você ainda reclama, controla ou barganha espiritualmente… em vez de agradecer e assumir a autoria do próprio caminho?
Quantas vezes você age como se sua espiritualidade fosse uma negociação, e não uma entrega?
E se a única coisa que ainda te impede de fluir
for exatamente essa recusa em dizer “obrigada”,
mesmo sem entender o porquê?